Publicado dia Março 23, 2013
Quando eu era pequena, aprendi rápido que adultos podiam ser controlados. Se quisesse a boneca que mamava e ouvisse um não tão frio quanto o Pólo Norte, me sentia desprezada e castigada e, dessa forma, uma boa chorada na frente da loja resolveria o meu problema. Lá pelas tantas, quando eu já estava craque na arte da pirraça, a mãe (muito enxerida!) de uma amiga, ensinou a minha mãe um novo truque. Um simples berreiro em algum lugar público já era suficiente para ela me olhar com cara de poucos amigos e dizer, apontando para algum rosto desconhecido: “Uma mocinha tão bonita fazendo vergonha na rua… Olha ali o menino olhando!”.
Assim, as minhas artimanhas deixaram de ser solução quando a minha mãe descobriu as delícias de haver um menino olhando pra um chilique infantil. Crescia uma criança com vergonha dos olhares do menino.
Técnica muito famosa entre as mães atuais quando questionadas sobre os seus incompreendidos nãos, o menino se torna uma ferramenta-chave para calar a matraca chorona das suas proles. O único problema é quando o menino não segue em frente e permanece na nossa vida até a próxima fase: da infância para a vida adulta.
Nos primeiros anos da minha adolescência o menino me perseguia em quase todos os momentos. Não gostava de falar em público, por puro receio dos olhares dos inúmeros meninos. Não abria a boca na classe a fim de evitar que o menino me constrangesse com seu olhar. Não fazia o que queria, com medo da reprovação do menino que olhava.
 Até que comecei a sentir as dores de fingir ser o que eu nunca fui. Deixar de seguir o meu coração, meus instintos e a minha própria cabeça começou a se tornar algo tão físico e dolorido que senti a obrigação berrante de parar de me queixar pela falta de prazer, levantar a minha poupança da cadeira e correr, sem olhar pra trás, em busca daquilo que me fizesse feliz – ainda que fosse esquisito ou inaceitável aos olhos do menino.
E deu certo. No início, senti que os olhos se multiplicavam quando eu vestia o que gostava, falava em público, tirava minhas dúvidas, dizia o que queria, saía com quem me interessava. Mas depois foi glorioso: os olhos se calaram – esquecendo os limites da lógica e da razão. E o menino, assim, se foi.
A técnica do menino é ótima para crianças birrentas. É maravilhosamente funcional até certo ponto – quando ainda não levamos o menino tão a sério e ainda não tememos seus olhares ao desejar toda a prateleira de bonecos ou doces. O dilema é quando ainda usamos o menino como desculpa pelos nossos temores e aumentamos seus poderes pela falta de coragem. Não há problema algum na timidez, no medo ou na insegurança – a menos que estes passem a atrapalhar de alguma forma qualquer parte da nossa vida. E é isso que o medo do menino faz: impede que sejamos livres. Diagnosticados com normose crônica, passamos metade de uma vida lamentando nossas falhas e invejando aqueles que não se importam com olhares alheios. O menino é útil na infância, mas, se torna um fardo se não aprendermos a lidar com nossos próprios fantasmas.
É hora de cortar de vez os laços com o menino. Nunca é tarde pra ser feliz.
Por Amanda Inácio


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